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Quando o gesto não vira palavra: o que isso nos ensina na clínica?

  • Foto do escritor: Ana Paula Bellarmino
    Ana Paula Bellarmino
  • 22 de abr.
  • 3 min de leitura

Na prática clínica, há uma cena que se repete com frequência:

a criança aponta, mostra, puxa o adulto, leva pela mão…mas não fala.


Diante disso, a pergunta aparece quase sempre da mesma forma:


“ Ele entende tudo, mas não fala. Por quê? ”


Talvez a questão não esteja apenas na ausência da fala.

Mas naquilo que acontece, ou não acontece, na passagem do gesto para a palavra.






O gesto sustenta… mas também pode permanecer



O gesto, como vimos, tem um lugar importante na constituição da linguagem. Ele inaugura caminhos, organiza a relação com o outro e participa da construção dos primeiros enlaces.


Em alguns percursos, porém, o gesto pode também ocupar um lugar de permanência.


Não porque a criança “prefere” o gesto, mas porque a passagem para a palavra envolve outras operações que nem sempre encontram sustentação.


Entre elas:


• A possibilidade de simbolização mais complexa

• A organização do significante

• A entrada na cadeia significante


Ou seja, não se trata de substituir gesto por palavra, mas de possibilitar um deslocamento.





Quando a palavra não encontra passagem




Há crianças que:


●   Se expressam com facilidade por gestos

●   São compreendidas pelos pais

●   Conseguem mostrar desejos e necessidades


E, ainda assim, a fala não se instala.


Isso pode dar a impressão de que “está tudo bem”. Mas, do ponto de vista clínico, algo precisa ser interrogado.


O gesto está abrindo caminho para a linguagem?


Ou está ocupando um lugar de permanecia?


Essa é uma diferença sutil, mas essencial.



A complexidade da passagem



A entrada na linguagem verbal não depende apenas de querer falar ou de ter algo a dizer.

Ela envolve diferentes operações e condições que participam desse percurso:


  • Memória fonológica

  • Organização motora da fala

  • Articulação simbólica

  • Sustentação pelo outro


Nas crianças com síndrome de Down, por exemplo, sabemos que diferentes aspectos podem atravessar esse processo.


Por isso, em alguns percursos, o gesto pode permanecer como uma via importante de expressão por mais tempo.


Mas essa permanência não pode ser compreendida apenas como um recurso facilitador.


É preciso interrogar o lugar que o gesto ocupa nesse percurso.





Quando o outro compreende antes da palavra




Um ponto clínico delicado, e bastante frequente, acontece quando o adulto compreende rapidamente aquilo que a criança deseja, sem que ela precise recorrer à palavra.


A criança apontao adulto entrega

A criança puxao adulto responde


E, assim, algo da relação se organiza.


Mas o que fica em jogo nesse percurso?


Quando tudo é compreendido de forma imediata, o espaço para a palavra pode não encontrar abertura.


Não por uma falta da criança, mas porque, em alguns momentos, o circuito se completa antes que algo da palavra precise acontecer.





Sustentar um intervalo para que a palavra possa surgir


Isso não significa ignorar a criança ou “fingir que não a compreendemos”.


Mas implica, muitas vezes, em sustentar um pequeno intervalo.


Um tempo. Um espaço onde algo possa se deslocar do gesto para a palavra.


Exemplo clínico simples:


A criança aponta para o objeto

O adulto não entrega imediatamente

Nomeia, espera, amplia


Esse intervalo, quando sustentado de forma cuidadosa, pode produzir algo novo.




O papel da clínica




Na terapia, o trabalho não consiste em retirar o gesto. Muito pelo contrário.


✔️ O gesto é acolhido

✔️ Reconhecido em seu lugar na linguagem

✔️ Considerado em sua produção de sentido


Ao mesmo tempo, a clinica também busca:


●    Abrir espaço para a palavra

●     Sustentar a construção de sentidos

●     Favorecer novas possibilidades de enunciação



Nem ausência, nem excesso


Talvez o ponto central esteja justamente aqui:


Não se trata de ausência de linguagem, nem de excesso de gesto.


Mas de como a criança está se organizando nesse percurso com a linguagem.


O gesto pode abrir caminhos. Mas também pode indicar um impasse.


E é justamente nesse espaço que a clínica acontece.



Referência base


Flabiano-Almeida, F. C., & Limongi, S. C. O. (2010). O papel dos gestos no desenvolvimento da linguagem oral de crianças com desenvolvimento típico e crianças com síndrome de Down. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, 15(3), 458–464.

 
 
 

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