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Antes da palavra: o gesto e a constituição da linguagem na criança

  • Foto do escritor: Ana Paula Bellarmino
    Ana Paula Bellarmino
  • 22 de abr.
  • 4 min de leitura




Na clínica com bebês e crianças pequenas, é comum que a ausência de fala apareça como a principal preocupação dos pais. Quando nos orientamos por uma escuta mais atenta,  porém, percebemos que a questão não se reduz simplesmente à falta de palavras.


Há algo que já está em jogo.


Antes mesmo da fala a criança já se inscreve na linguagem e o gesto ocupa um lugar fundamental nesse percurso.



O gesto não é intenção, é relação


Frequentemente, os gestos são descritos como formas de “comunicação intencional”. Mas essa leitura supõe um sujeito já constituído, que sabe o que quer dizer e utiliza o gesto apenas como meio para transmitir uma mensagem.





Nos primeiros tempos, porém, o gesto não parte de uma intenção organizada. Ele emerge no campo da relação com o outro.


Ele se produz:


●  No encontro com o olhar do outro

●  Na repetição das cenas interativas

●  Na possibilidade de ser reconhecido e sustentado


Ou seja, o gesto não é um instrumento previamente estruturado. Ele é efeito de uma inserção progressiva da criança na linguagem.



Na clínica, observamos que esse percurso não acontece de forma pronta ou linear.





Do corpo à linguagem: o gesto como passagem



Os primeiros gestos, como mostrar, dar, estender o braço, não devem ser compreendidos apenas como pedidos ou indicações.


Eles marcam algo mais profundo:


  • A entrada da criança em um circuito simbólico

  • A construção de um lugar de interlocução

  • A possibilidade de que algo do corpo ganhe valor de significante


Nesse sentido, o gesto funciona como uma passagem.


Não é ainda palavra, mas já não é apenas ação motora.


Ele se situa nesse entre, onde o corpo começa a ser atravessado pela linguagem.



Quando gesto e palavra se articulam



Com o tempo, gesto e palavra passam a aparecer juntos. Mas essa articulação não acontece como uma simples soma de elementos.


Ela revela um avanço na posição da criança na linguagem.


Por exemplo:


●       Quando a criança diz “mamãe” enquanto aponta para um objeto

●       Ou quando aponta para algo e diz “quer”


Não se trata apenas de complementar informação.


Há uma organização de sentido em construção, que antecipa possibilidades mais complexas de enunciação.


Por isso, essas combinações costumam ser relacionadas ao surgimento das primeiras frases, não como causa direta, mas como efeito de um percurso simbólico em curso.



E quando pensamos na síndrome de Down?





Nas crianças com síndrome de Down, o gesto costuma ocupar um lugar bastante presente ao longo do percurso de desenvolvimento.


Muitas vezes, ele permanece como uma forma importante de expressão, mesmo quando a fala começa a surgir.


Aqui, porém, um cuidado clínico se torna fundamental:


Não se trata de compreender o gesto apenas como facilitador da linguagem, nem apenas como uma estratégia compensatória.


O que observamos, em muitos casos, é que a passagem para formas mais complexas de organização da linguagem pode encontrar diferentes atravessamentos, especialmente na articulação entre palavras.


Essa questão não pode ser reduzida ao gesto em si. Ela precisa ser compreendida considerando:


  • O lugar do outro na interação

  • A qualidade das trocas

  • Os modos de sustentação da criança na linguagem

  • E os atravessamentos orgânicos presentes






O outro como condição



Se há algo que esse tema nos ensina, é que a linguagem não se constitui de forma isolada.


O gesto só adquire lugar na medida em que é:


  • Reconhecido

  • Retomado

  • Inscrito pelo outro


Quando um adulto responde ao gesto da criança, nomeando, ampliando e sustentando, não está apenas ensinando palavras.



Está oferecendo um lugar para que a criança possa se inscrever na linguagem.



Em alguns percursos, porém, essa sustentação pode encontrar diferentes desafios, seja na leitura dos gestos, na qualidade das trocas ou nas possibilidades de resposta do outro.


E isso também participa da forma como a criança vai construindo seu percurso na linguagem.




Clínica não é produzir falar, é sustentar linguagem


Esse deslocamento muda a forma como pensamos a prática clínica.


Mais do que investir diretamente na fala, o trabalho clínico passa por:



✔️ Sustentar o gesto em seu lugar de produção de sentido

✔️ Investir na relação e nas trocas estabelecidas

✔️ Ampliar possibilidades de enunciação

✔️ Incluir os pais como participantes do percurso



Porque não se trata de ensinar a criança a falar.


Trata-se de possibilitar que ela ocupe um lugar na linguagem.




Para além da falta


Talvez o maior risco, quando pensamos nas questões relacionadas à fala e à linguagem, seja olhar apenas para aquilo que aparentemente não está presente.


Mas a clínica nos mostra que, muitas vezes, há linguagem onde, à primeira vista, parece não haver fala


Nesse contexto, o gesto não ocupa um lugar menor.


Ele é uma das primeiras formas pelas quais a criança se inscreve no laço com o outro e, portanto, na linguagem.





Referência base


Flabiano-Almeida, F. C., & Limongi, S. C. O. (2010).

O papel dos gestos no desenvolvimento da linguagem oral de crianças com desenvolvimento típico e crianças com síndrome de Down. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, 15(3), 458–464.

 
 
 

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